Participação feminina na política e na economia: um panorama atual da desigualdade
- Sofia Sá Sodero
- 2 de jun. de 2025
- 5 min de leitura
Apesar de avanços legais e do aumento da escolaridade, dados recentes indicam que as mulheres brasileiras ainda enfrentam desigualdades estruturais tanto na política quanto no mercado de trabalho.
A igualdade de gênero é um princípio estabelecido nas democracias contemporâneas, mas os indicadores apontam que a paridade entre homens e mulheres ainda não foi alcançada no Brasil. Mesmo com maior escolaridade e inserção no mercado profissional, a presença feminina em cargos de poder político e funções de liderança permanece limitada. Este panorama expõe desigualdades persistentes, sustentadas por fatores legais, institucionais e culturais.
Representação feminina na política: Dados revelam sub-representação
Em 2025, as mulheres continuam sub-representadas nos espaços de poder ao redor do mundo. De acordo com o mapa Mulheres na Política de 2025, apenas 27,2% dos assentos parlamentares globais são ocupados por mulheres, enquanto a presença feminina à frente de ministérios sofreu um retrocesso, caindo para 22,9%.
No Brasil, o cenário é ainda mais alarmante. Segundo o relatório conjunto da União Interparlamentar (UIP) e a ONU Mulheres, o país ocupa a 133ª posição no ranking mundial de representação parlamentar feminina. Enquanto a média das Américas é de 35,4%, o Brasil conta com apenas 18,1% de deputadas federais (93 parlamentares) e 19,8% de senadoras (16 representantes).
No Poder Executivo federal, as mulheres chefiavam 32,3% dos ministérios em 2025, liderando 10 das 31 pastas existentes. O país ocupa, com isso, a 53ª colocação global nesse indicador. No entanto, essas lideranças estão majoritariamente concentradas em áreas sociais. Ministérios considerados estratégicos, como Defesa e Relações Exteriores, seguem sob comando masculino. Vale lembrar que, das 39 pessoas que exerceram a Presidência da República, apenas uma foi mulher.
Apesar de a legislação eleitoral brasileira estabelecer que pelo menos 30% das candidaturas sejam destinadas a cada sexo, o índice foi descumprido nas eleições municipais de 2024 em 772 municípios — o equivalente a 13,9% do total. Nacionalmente, as candidaturas femininas chegaram a 35,41%. Ainda assim, a discrepância entre eleitorado e representatividade persiste: entre 2016 e 2022, as mulheres representaram 52% do eleitorado, mas corresponderam a apenas 33% das candidaturas e 15% das pessoas eleitas. Em 2022, a taxa de mulheres eleitas para o Legislativo foi de 18%, e em 2020, 900 municípios brasileiros não elegeram nenhuma vereadora.
Estudos indicam que propostas como a adoção do sistema majoritário — o chamado “distritão” — dificultam ainda mais o avanço feminino na política, pois favorecem candidatos já consolidados. A ausência de fiscalização efetiva e de sanções rigorosas a partidos que não investem adequadamente em candidaturas femininas também se apresenta como um obstáculo relevante à equidade de gênero nos espaços de poder.
Diante do cenário apresentado, é evidente que os avanços na representatividade feminina na política seguem aquém do necessário, tanto em âmbito global quanto, de forma mais crítica, no Brasil. Os dados de 2025 escancaram um sistema que, embora preveja cotas e medidas de incentivo, falha na aplicação efetiva e na promoção de condições equitativas para a participação das mulheres. A baixa presença feminina em cargos estratégicos e a repetida violação da legislação eleitoral indicam que a desigualdade de gênero na política não é apenas um reflexo cultural, mas uma consequência de estruturas institucionais que resistem à mudança. Superar esse quadro exige mais do que legislações formais: requer fiscalização rigorosa, investimento em lideranças femininas e uma transformação profunda na forma como o poder é historicamente distribuído.
Mercado de trabalho: Avanço na escolaridade, manutenção da desigualdade
A participação das mulheres no mercado de trabalho brasileiro, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, tem crescido ao longo das últimas décadas, passando de 34,8% em 1990 para 52,2% em 2023. No entanto, essa taxa ainda permanece inferior à dos homens, que era de 73,2% em 2022. Mesmo com maior escolaridade, com mais mulheres concluindo o ensino superior, as desigualdades salariais e o acesso limitado a cargos de liderança seguem como entraves persistentes.
Em 2025, a diferença média de remuneração entre homens e mulheres é de 20,9%. Enquanto os homens recebem, em média, R$ 4.745,53, as mulheres ganham R$ 3.755,01. O relatório ainda destaca que a disparidade se amplia nos cargos mais elevados da hierarquia: em posições de direção e gerência, elas recebem apenas 73,2% dos salários pagos aos homens. Entre profissionais de nível superior, essa proporção cai para 68,5%, e em atividades administrativas, para 79,8%.
A desigualdade é ainda mais acentuada entre as mulheres negras. Dados de 2025 apontam que elas recebem, em média, R$ 2.864,39 — o equivalente a 47,4% do rendimento dos homens brancos, cuja média salarial é de R$ 6.033,15. No fim de 2023, a taxa de desemprego entre mulheres negras era de 11%, comparada a 7% entre mulheres brancas.
Outros indicadores presentes em uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) reforçam o cenário de desigualdade: em 2022, mulheres ocupavam apenas 39,3% dos cargos gerenciais no país. A presença de crianças pequenas em casa também se mostra como um fator de evasão feminina do mercado de trabalho. Além disso, as mulheres dedicam o dobro do tempo dos homens às tarefas domésticas e aos cuidados não remunerados. O trabalho em regime parcial, mais comum entre elas, contribui para a precarização das condições laborais.
Aprovada em 2023, a Lei da Igualdade Salarial estabelece a obrigatoriedade de transparência nas remunerações e a divulgação de relatórios salariais pelas empresas. No entanto, o primeiro relatório oficial aponta que apenas 32,6% das grandes empresas adotam políticas específicas para incentivar a contratação de mulheres.
Os dados indicam que a presença feminina na economia brasileira ainda enfrenta obstáculos estruturais significativos. A baixa ocupação de cargos de poder e a persistente desigualdade salarial — agravada no caso das mulheres negras — revelam um cenário que demanda mudanças profundas. Especialistas defendem que políticas afirmativas, fiscalização efetiva da legislação e reformas institucionais são caminhos fundamentais para a promoção da equidade. Avançar na igualdade de gênero não significa apenas ampliar a presença numérica das mulheres, mas garantir condições concretas para sua participação plena e equitativa no mundo do trabalho.
Com base no panorama apresentado, torna-se evidente que a desigualdade de gênero, tanto na política quanto na economia, não é fruto de falta de capacidade ou qualificação das mulheres, mas sim de um sistema que insiste em lhes impor barreiras estruturais. Os dados revelam que avanços pontuais, embora importantes, não têm sido suficientes para reverter um cenário profundamente enraizado na cultura e nas instituições brasileiras. A persistente sub-representação nos espaços de poder, aliada à disparidade salarial e à sobrecarga com o trabalho doméstico não remunerado, evidencia que a equidade ainda é um ideal distante. Enfrentar esse quadro exige mais do que políticas simbólicas: requer vontade política, fiscalização rigorosa, mecanismos de reparação histórica, sobretudo para as mulheres negras, e um esforço contínuo para transformar padrões sociais que naturalizam a exclusão. Promover a igualdade de gênero é, sobretudo, fortalecer a democracia e garantir um futuro mais justo e representativo para todos.

Por Julia Vargas Ramires



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