Por que você não deve querer ser esposa troféu?
- Sofia Sá Sodero
- 20 de jul. de 2025
- 4 min de leitura

Termo que está circulando na internet e se popularizando cada vez mais, “esposa troféu” é utilizado para se referir a mulheres que centralizam suas vidas nos cuidados com a estética, a saúde e a aparência, além de se dedicarem a agradar sempre seus maridos, homens que valorizam a imagem de suas esposas e, são a principal fonte financeira, provendo um alto padrão de vida.
Uma vida romantizada e viralizada nas redes sociais, principalmente no TikTok, tem sido o retrato de muitas mulheres que mostram suas próprias vidas de luxos, repleta de cuidados com a beleza, o corpo e, muitas vezes, compromissos ligados aos maridos. Elas publicam apenas momentos bons, reforçando a ideia de que esse estilo de vida é superior, sem compartilhar o lado ruim e os valores que se perdem nesse processo de construção pessoal, principalmente enquanto mulheres.
“O termo ‘esposa troféu' não é um conceito técnico da psicologia, mas representa um fenômeno social observado clinicamente: mulheres que são valorizadas principalmente por sua aparência e função estética dentro de um relacionamento”, afirma Verônica Cordeiro de Almeida, psicóloga e neuropsicóloga. “Essa imagem reforça a ideia da mulher como objeto de status — algo que remete diretamente ao olhar masculino como centro de validação. Do ponto de vista psicológico, isso é preocupante, pois reduz a mulher a um papel funcional, que não contempla sua subjetividade”.
O peso de viver para agradar
Entre as características de “esposa troféu” está a incansável procura pela aparência perfeita, que envolve exercícios físicos constantes, dietas, procedimentos estéticos e compras frequentes de bens voltados ao embelezamento e autocuidado. Tudo isso para manter a boa imagem e o padrão que o marido deseja para ter ao lado.
Mas, o que não é trazido à tona é o fato de que essa cobrança pessoal e pressão interna aumentam com o passar dos anos e com os sinais naturais do envelhecimento. Esse processo, que deveria ser encarado como algo natural, acaba sendo problematizado, uma vez que essas mulheres vêem traços juvenis femininos como base de vida.
Muitas vezes, o preço pago pelas mulheres ao passar por esse processo é a perda da identidade própria e a alta instabilidade, já que a aprovação masculina passa a ter mais valor do que cultivar gostos e desenvolvimentos pessoais.
A longo prazo, alguns efeitos desse título vão dando sinais. De acordo com Verônica, “os impactos vão desde baixa autoestima, disfarçada por uma necessidade constante de aprovação, até ansiedade, depressão e um sentimento difuso de vazio ou falta de propósito. Em muitos casos, essas mulheres se percebem facilmente substituíveis — o que fragiliza ainda mais sua estrutura emocional”.
Conforme a pesquisa do DataSenado, 46% das mulheres possuem a dependência financeira como impedimento para romper com seu companheiro, uma situação muitas vezes cultivada quando a mulher abdica de sua carreira profissional e desenvolvimento pessoal. Um dado alarmante para a psicóloga: “A mulher que vive para agradar e ser mantida tende a desenvolver um vínculo de dependência emocional e, muitas vezes, financeira. Isso a torna vulnerável, especialmente em relações abusivas, porque teme perder não apenas o parceiro, mas também a estrutura que lhe dá identidade e ‘valor’. E essa dependência é um dos principais fatores que impedem a ruptura de relações disfuncionais”.
Por trás do papel, o machismo
O uso da palavra “ troféu” se dá pelo fato que os homens que adotam esse modelo de esposa gostam de exibi-las, mostrando para a sociedade a beleza e a boa forma da parceira. Isso traz à tona um retrocesso nas conquistas feministas, que, com muito custo, levaram o papel da mulher muito além do trabalho doméstico e da atenção exclusiva à família.
Isso mostra a permanência do machismo e seu aumento, agora embelezado por um filtro bonito e de luxo. Contudo, dando continuidade ao papel estereotipado da necessidade feminina de agradar e se encaixar ao outro, muitas vezes anulando seu individualismo e trazendo uma submissão inconsciente.
“Historicamente, a mulher foi construída como ‘pertencente’ ao homem — seja como propriedade ou símbolo de prestígio. A ‘esposa troféu’ é a atualização contemporânea desse conceito. Jung falava que vivemos muitas vezes a partir de arquétipos inconscientes. Neste caso, o arquétipo da ‘mulher ideal’ — bela, silenciosa, disponível — serve ao narcisismo masculino, não ao desenvolvimento pleno da mulher” — ressalta a especialista, que aprofunda a reflexão sobre a presença do machismo maquiado por trás desse estilo de vida.
A fragilidade oculta destes relacionamentos
A professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Mirla Cisne, em entrevista à BBC News, trouxe o foco para a criação de relações de dependência, nas quais o carinho pode estar mascarando uma forma de investimento na mulher de maneira negativa. Segundo ela, “é preciso ter cuidado para não estabelecer uma relação de poder desigual, em que o homem é o sujeito central da relação e determina até onde as coisas podem ir ou não só porque ele banca tudo e a mulher é dependente dele”.
Ainda na análise destes relacionamentos, que, a longo prazo, apresentam problemáticas que afetam diretamente a mulher, a psicóloga ressalta: “Relações baseadas na imagem, na função decorativa ou na manutenção de um ideal externo tendem a gerar frustrações profundas com o passar do tempo. Com o envelhecimento, mudanças corporais, crises pessoais e o próprio desejo de se encontrar enquanto sujeito, esse modelo relacional entra em colapso. O amor que nasce da projeção é frágil — e quando o espelho trinca, o vínculo costuma ruir”.
Ser uma “esposa troféu” é uma escolha da mulher, mas que necessita de problematização e aprofundamento. Esse título não se resume apenas a uma vida de alto padrão e cheia de autocuidados, mas carrega riscos como a perda de direitos, da própria individualidade e poder sob a própria vida. O desenvolvimento pessoal e profissional em conjunto com a independência precisam ser valorizados pela mulher dentro de uma relação, para que o foco não se limite aos benefícios do presente.
Ser uma “esposa troféu” é uma escolha da mulher, mas que necessita de problematização e aprofundamento. Esse título não se resume apenas a uma vida de alto padrão e cheia de autocuidados, mas carrega riscos como a perda de direitos, da própria individualidade e do poder sobre a própria vida. O desenvolvimento pessoal e profissional, aliado à independência, precisa ser valorizado pela mulher dentro da relação, para que o foco não se limite apenas aos benefícios imediatos do presente.
Por Mariana Lima



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